sábado, 10 de julho de 2021

Graça, e você com isso: Parte 2

Como já vimos, Graça é a disponibilidade total de Deus em relação a nós. No entanto, ela se basta. E quando digo que a Graça se basta, quero dizer que ela é humilde e silenciosa; assim como toda virtude. Em nenhum momento a Graça se vê com a necessidade de se autoproclamar. Nunca a veremos apontando o dedo para si mesma. É por si mesma escandalosa, e misteriosamente pacata. Salva pessoas, mas nunca as converte através da força e violência. 

A personificação plena da Graça na vida, apenas esteve em Jesus. Fazia cegos enxergarem, mas pedia-lhes que agissem como se não tivesse visto nada. Mudos falavam em sua presença, mas os recomendavam a ficarem de bico calado. Paralíticos ficavam de pé, mas logo em seguida, vinha a advertência para permanecer onde estavam. Cristo escolhe um caminho invariavelmente existencial e realista; sem propagandas, sem marketing pessoal e sem promessas idealistas. Recusa o ilusório caminho de Satanás ao se recusar ser rei através das riquezas, para se tornar Rei crucificado e sem nenhuma posse. Não precisou apelar em nenhum momento para o poder poder político, havia autoridade em suas palavras, pois conhecia o que se passava no coração de cada um. A humildade lhe cabia, mesmo após a ressurreição; se revelando apenas aos discípulos no andar da caminhada, ao se reclinar na mesa para as refeições.

Ao que parece, tal exigência imposta pela Graça fora perdida por nós, ao passo que a necessidade de aprovação flui de nós com extrema naturalidade. Sempre em busca das melhores edições de fotos para o Instagram, sem mesmo perceber que a pessoa estampada na tela mal se parece contigo. Da necessidade de estar no palco constantemente, sem entender que o foco das atenções nunca deveria ter sido você. De nunca parar pelo menos um minuto pra pensar que a discussão entre você e seu parceiro(a) poderia ser culpa sua. Em se achar gênio, quando na verdade não passa de um mediano comparado aos verdadeiros gênios. Sendo a vida inteira esnobe, por ser simplesmente filho(a) do chefe. A Graça nos salvará da soberba, no dia em que olharmos para dentro e perceber que somos igualmente humano com o cara negro (e também gay, mulher e religioso) que menosprezamos. Para se achegar aos céus, não se trata de uma corrida ou disputa de quem é o melhor, é relacionamento com o Deus soberano que se fez carne, viveu humildemente, morreu como qualquer um e ressuscitou sem síndrome de grandeza.

Ser humildade requer lucidez, é consciência de si mesmo. É ser servo inútil, mesmo no topo do mundo. Somente a Graça encarnada na vida, nos ensina a fazer tudo, para a glória de Deus.

terça-feira, 29 de junho de 2021

Graça, e você com isso: Parte 1

Deus não tem ninguém na sua lista. Ama pessoas que com certeza você odeia. Perdoa aqueles que jamais imaginaria. Ouve orações de gays. Impulsiona mulheres no lugar de homens covardes e promíscuos. É capaz de encontrar políticos honestos. Dorme juntamente com o mendigo da rua ao lado. Está na boca de profetas anônimos sem nenhuma visualização no Instagram. Transforma vidas na igreja que você critica. Evangeliza através do pastor radical e antiquado. Deus pode estar em tudo e entre todos. Ele não pode ser monopolizado pelos meios exclusivos proclamado pelos evangélicos. Não sabemos de onde vem, não compreendemos pra onde vai. 

Deus está absolutamente disponível, para os mais cruéis de baixo da terra (inclusive você). A Graça é um incessante grito divino a todos nós, por isso a cruz é eterna. Deus nada cobra por sua disponibilidade, apenas a lucidez de vossa parte - de que nada pode, nada sabe e nada é. Não está disposto a negociar o que poderia te dar de (e pela) graça. Graça é mais que um conceito de salvação, é o modo como se vive. É relacionamento puro e simples, pautado não no que temos, e sim em quem somos. Graça é a disponibilidade absoluta de Deus para conosco, miseráveis.

E eu com isso? Nunca mais ajudei um mendigo porque um dia ele não aproveitou a moeda como eu esperava. E eu com isso? Me divorciei, o amor esperado não superou minhas expectativas. E eu com isso? Não congrego mais na igreja, há muitos defeitos para suportar. E eu com isso? Não converso mais com ele(a), é ele quem precisa pedir perdão. E eu com isso? Faz tempo que não oro, Deus nunca dá o que peço constantemente. E eu com isso? Desacreditei na política, não há ninguém bom o suficiente. E eu com isso? Sou bom o bastante para estar no meio dessa família/amigos, fico só ou arranjo pessoas do meu nível...

E assim andamos, cegos pelo ego, perdidos pelo orgulho. E mal entendemos o legado deixado por Jesus, de que tudo é graça, a ser experimentado e compartilhado no cotidiano. 

quarta-feira, 12 de maio de 2021

Desafios de uma interpretação bíblica para o cotidiano

Numa destas conversas em grupos de WhatsApp, em que todo estudante de Teologia está predestinado a estar em algum momento da vida, surgiu o tema (e consequentemente uma pergunta muito perspicaz) do por quê a Teologia não alcança, em suas interpretações bíblicas, uma mensagem para o cotidiano. Daí em diante, como que um raio, automaticamente me vi atravessando séculos em busca da origem do problema. E acredite se quiser, o problema é bem mais sutil do que imaginamos. 

Quando falamos sobre linguagem, não estamos apenas discursando sobre o dialeto de um país ou determinada época; para além da superfície, entendemos sobre uma forma de entendimento embutido nesta linguagem. O apóstolo Paulo, por exemplo, se utilizava de uma linguem - e logicamente de uma forma de entender as coisas - grega e aristotélica. Paulo se explicava com uma linguagem que exigia de si uma certa perfeição, feita de conceitos absolutos. Ou seja, para Paulo, era necessário explicar o Deus Soberano através de uma linguagem conceitual, onde houvesse perfeições nas suas características. E era assim que seu contexto entendia tudo, com uma linguagem filosófica instaurada há muito por Platão e Aristóteles, que já se estendia por todo império romano, inclusive por oradores famosos da época, como Fílon e Sêneca.

Não se sabe se tal linguagem fora absorvida por Paulo pela força da cultura que o rodeava, ou se utilizou-se pura e simplesmente pela esperteza de transmitir a mensagem de Cristo a pessoas que só poderiam entender. Fato é, que esta forma de entendimento conceitual e perfeccionista foi herdada pelos protestantes, defendida a ferro e fogo por gente como Lutero e Calvino. Não por acaso, o pensamento grego-aristotélico cheios de conceitos absolutos fez com que a Igreja organizasse uma espécie de triângulo amoroso: Cristo incessantemente ama sua Igreja, que por sua vez não se cansa de correr atrás de Paulo e sua linguagem, enquanto que o apóstolo está sempre apontando para Cristo. Isto é, a igreja protestante fez de sua teologia uma caricatura paulina; usando suas expressões, sempre refinando suas falas e pensamento. Por exemplo, no conhecido embate entre Erasmo e Lutero, em resposta ao seu adversário, ficou famosa a frase dita por Lutero: "Deixa Deus ser Deus"; pois o fato Deus ser bom, fazia de Deus um ser maleável e levado por suas compaixões. Não havia espaço para um deus que não fosse caracterizado por sua soberania, inflexibilidade e invariabilidade. Da mesma forma Calvino, que usa 90% do seu embasamento para sua doutrina da Predestinação e Provisão, em cima das falas de Paulo. 

Esta linguagem herdada por Paulo fez dos protestantes perfeccionistas, factuais e com uma marca de oito ou oitenta muito forte. E de alguma forma, nós o aceitamos de bom grado. Este DNA teológico, na verdade, está invariavelmente embutido naturalmente em nossa forma de pensar, se expressar e raciocinar. Sempre usamos em nossa teologia as mais perfeitas e absolutas expressões a respeito do perfeito Deus, de uma forma bem conceitual e racional. 

Mas o que esquecemos é que o próprio Jesus rejeita tal sistema e curiosamente implanta seu Reino através de parábolas, histórias estritamente ligadas ao cotidiano. Isso significa dizer que Jesus escondia os mais belos ensinamentos em histórias que diziam respeito ao que fazemos durante o dia, como e com quem. Significa dizer que o Reino de Deus se traduz não nos mais belos conceitos sobre a divindade, muito menos nas mais perfeitas e absolutas características sobre Deus, mas sim sobre como agir com nossas mãos a respeito do próximo. O segredo não está nos discursos, mas na ênfase da ação das mãos do pregador itinerante de Israel. Basta observar que tudo quando disse, praticou. 

O Cristo dos Evangelhos nos ensinou que a Palavra foi Encarnada, e não vice versa. A palavra de Deus traduz-se agora em atos e ações que se manifestam como vida. Por exemplo, pouca gente entende que quando Ele diz ser a Verdade, está intuindo que a verdade não pode ser mais um conceito, mas agora diz respeito ao caráter. Sim, Deus tornou-se homem, o absoluto se aventurou a ser levado pelos sentimentos humanos. E por mais que doa ouvir isto, preciso lhe confessar: a verdadeira Teologia tem como sua chave mestra a vida de Jesus nos Evangelhos, bem como a testificação do seu Espírito dentro de nós. A práxis é a verdadeira forma de saber se o que digo, é verdade; da mesma forma que a palavra se tornou carne e mostrou a todos nós como verdadeiramente se pratica a verdade de Deus. 

O que de fato nos desafia na nossa interpretação bíblica para o cotidiano, é a nossa renúncia e omissão do que já sabemos que devemos fazer, mas teimosamente preferimos nos esconder atrás das mais belas palavras.