Como já vimos, Graça é a disponibilidade total de Deus em relação a nós. No entanto, ela se basta. E quando digo que a Graça se basta, quero dizer que ela é humilde e silenciosa; assim como toda virtude. Em nenhum momento a Graça se vê com a necessidade de se autoproclamar. Nunca a veremos apontando o dedo para si mesma. É por si mesma escandalosa, e misteriosamente pacata. Salva pessoas, mas nunca as converte através da força e violência.
A personificação plena da Graça na vida, apenas esteve em Jesus. Fazia cegos enxergarem, mas pedia-lhes que agissem como se não tivesse visto nada. Mudos falavam em sua presença, mas os recomendavam a ficarem de bico calado. Paralíticos ficavam de pé, mas logo em seguida, vinha a advertência para permanecer onde estavam. Cristo escolhe um caminho invariavelmente existencial e realista; sem propagandas, sem marketing pessoal e sem promessas idealistas. Recusa o ilusório caminho de Satanás ao se recusar ser rei através das riquezas, para se tornar Rei crucificado e sem nenhuma posse. Não precisou apelar em nenhum momento para o poder poder político, havia autoridade em suas palavras, pois conhecia o que se passava no coração de cada um. A humildade lhe cabia, mesmo após a ressurreição; se revelando apenas aos discípulos no andar da caminhada, ao se reclinar na mesa para as refeições.
Ao que parece, tal exigência imposta pela Graça fora perdida por nós, ao passo que a necessidade de aprovação flui de nós com extrema naturalidade. Sempre em busca das melhores edições de fotos para o Instagram, sem mesmo perceber que a pessoa estampada na tela mal se parece contigo. Da necessidade de estar no palco constantemente, sem entender que o foco das atenções nunca deveria ter sido você. De nunca parar pelo menos um minuto pra pensar que a discussão entre você e seu parceiro(a) poderia ser culpa sua. Em se achar gênio, quando na verdade não passa de um mediano comparado aos verdadeiros gênios. Sendo a vida inteira esnobe, por ser simplesmente filho(a) do chefe. A Graça nos salvará da soberba, no dia em que olharmos para dentro e perceber que somos igualmente humano com o cara negro (e também gay, mulher e religioso) que menosprezamos. Para se achegar aos céus, não se trata de uma corrida ou disputa de quem é o melhor, é relacionamento com o Deus soberano que se fez carne, viveu humildemente, morreu como qualquer um e ressuscitou sem síndrome de grandeza.
Ser humildade requer lucidez, é consciência de si mesmo. É ser servo inútil, mesmo no topo do mundo. Somente a Graça encarnada na vida, nos ensina a fazer tudo, para a glória de Deus.
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