quarta-feira, 12 de maio de 2021

Desafios de uma interpretação bíblica para o cotidiano

Numa destas conversas em grupos de WhatsApp, em que todo estudante de Teologia está predestinado a estar em algum momento da vida, surgiu o tema (e consequentemente uma pergunta muito perspicaz) do por quê a Teologia não alcança, em suas interpretações bíblicas, uma mensagem para o cotidiano. Daí em diante, como que um raio, automaticamente me vi atravessando séculos em busca da origem do problema. E acredite se quiser, o problema é bem mais sutil do que imaginamos. 

Quando falamos sobre linguagem, não estamos apenas discursando sobre o dialeto de um país ou determinada época; para além da superfície, entendemos sobre uma forma de entendimento embutido nesta linguagem. O apóstolo Paulo, por exemplo, se utilizava de uma linguem - e logicamente de uma forma de entender as coisas - grega e aristotélica. Paulo se explicava com uma linguagem que exigia de si uma certa perfeição, feita de conceitos absolutos. Ou seja, para Paulo, era necessário explicar o Deus Soberano através de uma linguagem conceitual, onde houvesse perfeições nas suas características. E era assim que seu contexto entendia tudo, com uma linguagem filosófica instaurada há muito por Platão e Aristóteles, que já se estendia por todo império romano, inclusive por oradores famosos da época, como Fílon e Sêneca.

Não se sabe se tal linguagem fora absorvida por Paulo pela força da cultura que o rodeava, ou se utilizou-se pura e simplesmente pela esperteza de transmitir a mensagem de Cristo a pessoas que só poderiam entender. Fato é, que esta forma de entendimento conceitual e perfeccionista foi herdada pelos protestantes, defendida a ferro e fogo por gente como Lutero e Calvino. Não por acaso, o pensamento grego-aristotélico cheios de conceitos absolutos fez com que a Igreja organizasse uma espécie de triângulo amoroso: Cristo incessantemente ama sua Igreja, que por sua vez não se cansa de correr atrás de Paulo e sua linguagem, enquanto que o apóstolo está sempre apontando para Cristo. Isto é, a igreja protestante fez de sua teologia uma caricatura paulina; usando suas expressões, sempre refinando suas falas e pensamento. Por exemplo, no conhecido embate entre Erasmo e Lutero, em resposta ao seu adversário, ficou famosa a frase dita por Lutero: "Deixa Deus ser Deus"; pois o fato Deus ser bom, fazia de Deus um ser maleável e levado por suas compaixões. Não havia espaço para um deus que não fosse caracterizado por sua soberania, inflexibilidade e invariabilidade. Da mesma forma Calvino, que usa 90% do seu embasamento para sua doutrina da Predestinação e Provisão, em cima das falas de Paulo. 

Esta linguagem herdada por Paulo fez dos protestantes perfeccionistas, factuais e com uma marca de oito ou oitenta muito forte. E de alguma forma, nós o aceitamos de bom grado. Este DNA teológico, na verdade, está invariavelmente embutido naturalmente em nossa forma de pensar, se expressar e raciocinar. Sempre usamos em nossa teologia as mais perfeitas e absolutas expressões a respeito do perfeito Deus, de uma forma bem conceitual e racional. 

Mas o que esquecemos é que o próprio Jesus rejeita tal sistema e curiosamente implanta seu Reino através de parábolas, histórias estritamente ligadas ao cotidiano. Isso significa dizer que Jesus escondia os mais belos ensinamentos em histórias que diziam respeito ao que fazemos durante o dia, como e com quem. Significa dizer que o Reino de Deus se traduz não nos mais belos conceitos sobre a divindade, muito menos nas mais perfeitas e absolutas características sobre Deus, mas sim sobre como agir com nossas mãos a respeito do próximo. O segredo não está nos discursos, mas na ênfase da ação das mãos do pregador itinerante de Israel. Basta observar que tudo quando disse, praticou. 

O Cristo dos Evangelhos nos ensinou que a Palavra foi Encarnada, e não vice versa. A palavra de Deus traduz-se agora em atos e ações que se manifestam como vida. Por exemplo, pouca gente entende que quando Ele diz ser a Verdade, está intuindo que a verdade não pode ser mais um conceito, mas agora diz respeito ao caráter. Sim, Deus tornou-se homem, o absoluto se aventurou a ser levado pelos sentimentos humanos. E por mais que doa ouvir isto, preciso lhe confessar: a verdadeira Teologia tem como sua chave mestra a vida de Jesus nos Evangelhos, bem como a testificação do seu Espírito dentro de nós. A práxis é a verdadeira forma de saber se o que digo, é verdade; da mesma forma que a palavra se tornou carne e mostrou a todos nós como verdadeiramente se pratica a verdade de Deus. 

O que de fato nos desafia na nossa interpretação bíblica para o cotidiano, é a nossa renúncia e omissão do que já sabemos que devemos fazer, mas teimosamente preferimos nos esconder atrás das mais belas palavras. 

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